segunda-feira, 14 de julho de 2014

HISTÓRIA DE GURUPÁ

salomão Larêdo escritor e jornalista

MARIA DA GRAÇA
"Não entendo nada de estudo
MAS, DE TALA, ENTENDO TUDO !"



Sábado[1], final da tarde, nublado, sem chuva, enseja prosa com cafezinho e chegamos[2] à casa de Maria da Graça que nos recebeu com gentilezas. E eu fui logo dizendo: o dono da cobra é Florêncio[3], mas foi você quem a fez. É isso mesmo? Maria da Graça, modesta e simples, encaminhando à sala de sua casa de madeira disse que sim e quando me preparava para perguntar seu nome e escolaridade, ela parece que advinha e logo responde:




 -Não sei leitura...

Num átimo de segundo, sentado na sala, mezona, olhava aquela mulher simpática, branca, procurando traduzir [4]aquela resposta, ela completa:




- mas sei fazer tudo de tala, cipó, qualquer coisa, até tamanduá-bandeira.
- Qual cipó?

- Cipó titica, arumã membeca. Olhe, de tala, entendo tudo.

- Quem te ensinou?


- Ninguém. Nasci com este dom.

Aí pude entender porque Maria da Graça, de 56 anos, mantinha o rosto de 38 anos demonstrando a felicidade de ser uma artesã que quer fazer sua arte despreocupada com a comercialização. Mas, a vida difícil na casa humilde onde mora com o marido, filhas e netos, precisa do que aufere com o fabrico dos objetos de tala.

E como foi a cobra que nos levou até lá, procurei saber em quanto tempo fizera a cobra que está na casa do Florêncio.

- Fiz em três dias porque é peça que tem formalidade, ou seja, é preciso ir escondendo a tala que se vai tecendo, na parte do rabo, afinando, com cuidado e na parte da cabeça. É preciso jeito, engenho, arte.

Florêncio encomendara a Maria da Graça uma cobra de uns quatro metros, bem maleável. Ela fez de arumã-membeca. A pintura e a cabeça, ficaram por conta de Florêncio que colocou duas petecas no buraco do olho e o dorso, deu boas pinceladas de tinta branca à base de óleo e na parte da frente, coloriu ao seu jeito e assim constituiu o famoso “Cobra Norato” e estava pronto o cordão da cobra.
Já era quase seis da tarde e Maria da Graça contava que sabe fazer cadeira, estante, nomes, tudo de tala, apenas usa tala.

Ela tece tudo. Faz também tupé.

- Faço até uma moça assim e apontou para Eriana, professora que me acompanhava nessa entrevista.

- Sou peoara no tecume.

As filhas de Maria da Graças já incorporaram a profissão e se garantem fazer peneira, tipiti, matapi e outros objetos.

- O que tu colocaste na barriga da cobra para ficar bujuda e qual o segredo daquele molejo?

- Na barriga, colocamos plásticos, mas poderia fazer o enchimento com outros produtos como papel. A maleabilidade se consegue com a tala bem raspada para ficar bem fina. O arumã é bem maleável e como engelha, ele enforma legal, molhando com água.

-Onde você compra esse material?

- Eu não compro, vou buscar no mato. Sei onde tem, não é longe, é só cortar e trazer. Eu mesma carrego, preparo e trabalho de acordo com a encomenda.

E a filha Roseanne me apresenta bonita peneira feita de arumã com suporte de paxiúba, que aguarda o dono vir buscar e pagar, claro.

Conversamos mais um pouco, nos despedimos, enquanto Maria da Graça preparava o churrasquinho para vender na porta da casa. Ela informa que ajuda o marido no sustento da casa onde em tudo faz e ajuda para nada faltar aos familiares. E me observa pra dizer:

- Olhe, eu não estudei. Meu pai não me colocou pra estudar. Por causa disso até uma vez tive uma discussão com uma das minhas irmãs - somos muitas-, todas elas estudaram, menos eu. Mas, acho que não adiantaria, já tentei muitas vezes. Do estudo, não atino nada, não consigo saber as letras. É uma dificuldade muito grande que tenho. Não dá, não consigo ir adiante.

Mas, na tala, ela é a tal!

Você pode ler a lenda da Cobra Norato neste livro do escritor Salomão Larêdo:

* Devido o grande número de visualizações, repetimos esta matéria publicada neste blog em fevereiro de 2012

[1] 21 de Janeiro de 2012.
[2] Eu e a professora Eriana Leão Dias.
[3] Florêncio, 75 anos, é  afro-descendente, que mantém o cordão da Cobra Norato e o Boi-Bumbá que todo ano muda de nome, para  poder manter e repassar aos mais jovens a tradição cultural de Gurupá. Dele o leitor vai saber mais na parte 3 destas histórias de Gurupá.
[4]  Maria da Graça que sabia , através da professora Eriana,  de meu interesse em fazer uma pequena entrevista ao me ver em sua casa  , informada de que sou  jornalista , escritor , quis  logo esclarecer  que não possuiu estudo formal. Mas, é mulher sábia, formada pelas escola da vida e que vida.

Um comentário:

Gabriel Melo disse...

Muito bom, vou acompanhar mais o seu blog, muito bom mesmo!