quinta-feira, 26 de março de 2009

O FUTURO DA IGREJA CATÓLICA NA VISÃO DO TEÓLOGO BELGA JOSEPH COMBLIN

Salomão Larêdo escritor e jornalista

José Comblin, 86 anos, belga, natural de Bruxelas,professor e doutor em Teologia pela Universidade de Lovaina, escritor com inúmeros livros publicados – O povo de Deus – Vocação para a Liberdade – Breve Curso de Teologia -, padre secular, residente na Arquidiocese de João Pessoa, na Paraíba, é um dos formuladores da Teologia da Libertação, que esteve em Belém participando do Fórum Social Mundial, concedeu ao jornalista Salomão Larêdo a entrevista a seguir.


IGREJA DO NORDESTE MUDOU

Padre Joseph Jules Comblin, quase aos noventa anos de idade, com reconhecido trabalho no campo da educação popular e trabalhos pastorais em prol das massas oprimidas na América Latina, em especial no Brasil e no Chile, com relevante atividade intelectual como educador e humanista, além de fazer palestras pelo Brasil a fora, no exterior e escrever livros, é o fundador e responsável pelos Institutos de Formação de Missionários Leigos “na esperança de que um dia os missionários leigos possam ser reconhecidos na Igreja. No momento tudo depende da boa-vontade dos párocos”, diz modestamente o teólogo de voz pausada, meditada e de sotaque bem carregado, ainda que expressando-se muito bem na língua portuguesa, por conta de seus vários anos no Brasil desde que chegou em São Paulo e depois foi para o Nordeste.

SL: Padre Comblin, fale de seu Instituto de Formação de Leigos.
R: Temos núcleos na Paraíba, Bahia, Pernambuco, Tocantins, Piauí onde aplicamos curso intensivo de um mês uma vez por ano .A média é de 40 a 50 alunos em cada núcleo, tudo subvencionado pela Adveniat ( Alemanha) e pela Ama ( Holanda).
SL: Trabalho tão importante, porque não é financiado pela Igreja católica?
R: É financiado pela Igreja católica de outros países. No Brasil a formação de missionários do meio popular ainda não foi reconhecida.
SL: Quanto tempo o senhor faz este trabalho?
R: Mais ou menos 27 anos.
SL: Há algum resultado?
R: A Igreja no Nordeste não mudou com isso. Mas formamos núcleos de cristãos realmente convertidos. Uma vez que as pessoas são convertidas – porque o cristianismo tradicional não é feito de pessoas convertidas; os evangélicos, sim; os católicos, não -, tudo muda. Logo, precisamos preparar católicos, que sejam cristãos convertidos, mesmo. Sem isso, ficamos com o de sempre, ou seja, com o cristianismo tradicional, fraco, sem compromisso, aquele em que o catolicismo se mantém por ser tradição, costume da família e não algo que sai da consciência pessoal. Ai, o resultado é que, se um dia vem um pastor, esse católico apenas por tradição familiar, é facilmente seduzido porque não tem lastro, firmeza, base sólida que se ganha através de uma opção consciente, uma verdadeira conversão e ele vai com o pastor “Descobrir Jesus”.
Infelizmente poucos são os padres, lideres, dirigentes, missionários católicos que preparam uma conversão.Então nosso trabalho é no sentido de sempre ter a esperança de começar algo mais firme.
SL: Por que o senhor se tornou teólogo?
Resposta: Quando fui ordenado sacerdote, em 1947, me mandaram estudar Teologia.
SL: De quem foi a ordem?
Resposta: Do arcebispo, tive que obedecer.
SL: Qual era a sua diocese?
R: Malinas.
SL: Quando o senhor começou escrever suas reflexões teológicas?
R: Comecei cedo escrevendo algumas coisas que não eram publicadas, muitas serviam, por exemplo eram utilizadas pelo futuro cardeal Suenens. Publiquei meu primeiro livro em 1958, já tinha 35 anos de idade e o título era – Ressurreição de Jesus – que depois foi publicado no Brasil.
SL: Quem é Deus nestes tempos pós-modernos ?
R: Temos que fazer um recorte aqui para poder responder a esta sua pergunta, Salomão, Vamos nos ater a religião no mundo ocidental. Podemos dizer que as massas populares da América Latina ainda continuam com a idéia tradicional de Deus, assim como nos Estados Unidos da América do Norte. Por exemplo, não aceitam a teoria da evolução das espécies. Nas classes pobres continua a crença na criação do mundo, conforme se encontra no livro do Gênesis. Deus é o Senhor, é aquele que dá segurança e ajuda para a pessoa viver mais tranqüila e que quer boa conduta. Para as camadas populares a pós-modernidade não existe a nível de consciência.
A dúvida está na classe intelectual. No Brasil, no ano 2000, 7% se diz sem religião, mas a maioria crê em Deus.Não acredita naquela visão tradicional, no catolicismo dos tempos dos seus avós, mas acreditam em algo que é superior a todas as criaturas. Acreditam com dúvidas, mas não são ateus convictos.
Aos leigos, infelizmente, não se dá quase nenhuma formação religiosa. Então quando entram em contato com o mundo científico, não sabem como reagir.

Ai há diversas situações. Há gente que diz que não crê em Deus, mas é que porque tem raiva do padre que lhe fez alguma coisa e sai dizendo que não crê em Deus. Não crê é no padre e porque não gosta deste.
Nos Estados Unidos da América do Norte há atualmente 38 mil religiões que são reconhecidas pelo Estado/Nação. Em São Paulo, há muitas religiões Cada vez mais pessoas buscam uma religião diferente da religião das Igrejas tradicionais.
SL: E para o teólogo padre Comblin, quem é Deus?
R: É a fonte de vida , fonte do universo, está presente em tudo, em cada um de nós, nos animais, nas plantas, nas estrelas, na terra, no mar,no ar, como aquele que anima, que é energia, força, vontade de viver, lutar, crescer, amor, dom. Esse Deus se revelou em Jesus Cristo.

A IGREJA ESTÁ FICANDO MAIS VAZIA

SL: Como está hoje a Igreja católica no tocante a administração, direção, hierarquia, seminário, formação de padres, religiosas, bispos, leigos, liturgia?
R: Tudo isso é apenas a super-estrutura institucional. A Igreja é o povo reunido em Cristo. As formas institucionais são construções históricas, mas não são a realidade da Igreja que é esse povo. Na história aparecem revestimentos institucionais que podem variar.
No principio a eucaristia não era a missa atual.Era a última refeição antes de entrar na caminhada missionária. Era o pão e o vinho, corpo e sangue de Jesus como alimento para a viagem, para o núncio da mensagem da libertação aos pobres. Hoje em dia, tem
gente que comunga e continua a mesma vida de sempre, e não transforma nada. Para muitos a eucaristia se transformou em culto.
No início as comunidades se governam por si mesmas e os apóstolos eram itinerantes.
Depois de certo tempo apareceu um conselho permanente à maneira dos judeus, um conselho de anciãos para dizer o que está certo ou não.
O conselho passa a ter um presidente que começou a ser o superior dos conselheiros e monopolizou a sucessão dos apóstolos.
Chegou a mudança procedida pelo imperador Constantino e ele quis fazer da igreja cristã a religião do Estado, obrigatória para todos.
Constantino convocou os bispos e não as comunidades, e os reuniu no palácio dando origem ao que se denominou de Concilio de Nicéia , definindo tudo que ele queria. Deu aos bispos um status dentro da estrutura imperial , e eles passaram a ser homens importantes. Apareceram os bispos convivendo com os reis, imperadores e outras autoridades, daí essa pompa, os trajes, etc. O curioso é que tem gente que ainda está com saudades daqueles tempos...Sonhos do passado.Completamente afastados do povo, eles representavam um poder ao lado do poder imperial.
SL:o que isso tem a ver com Jesus Cristo que era um pobre carpinteiro vivendo nos povoados?
R: Hoje os intelectuais não suportam essa herança do passado que lhes parece folclore.
A questão dos padres, dos sacerdotes, é central. A figura do pároco apareceu no século XII. Antes, os donos da terra eram também donos da religião e os padres eram os seus servidores. Então apareceu um movimento de emancipação para que os padres estivessem fora da terra do fazendeiro e reunissem os fiéis fora da terra do proprietário. Na Europa as paróquias nasceram no século XIII. No Brasil no interior o sistema da dominação dos fazendeiros prolongou-se até o século XX e as paróquias são mais recentes salvo nas cidades antigas.


Vou contar, Salomão Larêdo, um episódio. Quando eu cheguei no Brasil, um dia um fazendeiro veio me procurar para dizer: padre, o senhor tem que perguntar a esses camponeses, na hora da confissão deles, sobre a questão do roubo. Eles roubam muita ferramenta daqui.
Imagine se eu ia fazer o papel de delator que o fazendeiro queria.
Para o povo havia os santos especializados conforme suas necessidades de saúde , por exemplo, santa Luzia, para os olhos; são Brás, para os males da garganta e assim outros e outros. E isso os satisfazia.
Hoje em dia a imensa maioria da população mora em cidades, inclusive os que trabalham no campo. A sociedade é muito complexa Há várias religiões e as pessoas podem escolher. A paróquia perde sua importância As pessoas têm outras maneiras de formar grupos e comunidades. A paróquia ainda reúne os mais velhos, mas os jovens não se identificam com essa forma social. Escolhem os seus líderes religiosos mas não aceitam simplesmente o pároco porque é pároco. As Igrejas paroquiais esvaziam-se.

SL: A divisão administrativa de uma diocese, em paróquias, tem futuro?
R: A Conferencia de Aparecida em 2007 propôs uma forte descentralização da paróquia de tal modo que se multipliquem as pequenas comunidades, cada uma com sua autonomia. Essas comunidades são dirigidas por leigos, ou, melhor dito, se administram a si próprias.Toda a comunidade deve saber - e sabe - administrar e deve decidir. O padre, numa estrutura nova, é conselheiro espiritual, mas deixa de ser o chefe.
Hoje em dia os leigos não são mais analfabetos. São muito capacitados, e eles devem assumir a nova estrutura. Se não o fazem é porque se não lhes permite ou porque eles não tem isso na cabeça. A estrutura paroquial que atribui todo o poder ao pároco infantiliza o povo. Os que não aceitam a infantilização desistem, saem.
Quase 2 milhões de católicos passam para as igrejas evangélicas a cada ano no Brasil.Desse jeito, daqui a 50 anos quase não teremos católicos. Sucede que os leigos não se sentem promovidos no sistema paroquial.
SL: O que é ser bispo, presentemente?
R: Desde o século XVI os bispos foram nomeados pelos reis pelo imperador. O que o rei esperava , era que os bispos fossem bons administradores das dioceses e defensores das autoridades. Quando os reis foram destituídos desse poder, o Papa tomou o seu lugar e nomeou os bispos. Mas a preocupação principal era ainda a eleição de bons administradores que fossem também piedosos. Muita coisa desse passado ainda subsiste. Tivemos há uns 30 anos atrás uma geração de bispos de grande prestígio social porque se fizeram os defensores dos pobres e entraram na sociedade para tornar o evangelho presente no mundo. Depois deles veio uma nova geração inspirada pelo ideal antigo de bons administradores. Hoje em dia a Igreja deseja bispos que sejam profetas no meio do mundo, testemunhas do evangelho nas situações concretas do mundo.


CAMPONESES NUNCA ESCREVEM PARA O VATICANO RECLAMANDO OU PEDINDO NOMEAÇÃO DE BISPO

SL: Como vê a atuação da CNBB e a nomeação dos bispos atuais?
R: A Assembléia dos bispos aprovou em Aparecida um documento muito importante para a igreja católica do Brasil, qual seja, todos têm que ser discípulos e missionários. Mas o problema é a prática dessa teoria Mas quem está preparado para isso? A Igreja não se preocupou em preparar missionários antes de enviar os seus membros para a missão. A teoria não condiz com a prática, porque não houve formação. Agora está o desafio de preparar discípulos e missionários.
Hoje, talvez sejam poucos nessa missão : alguns religiosos e algumas religiosas, jesuítas, franciscanos, combonianos e outros. E os padres diocesanos, a maioria dos religiosos, e religiosas, os agentes de pastoral ? E os leigos e todo o povo recebeu formação? Que eu saiba, não. E o documento bem feito e importante fica sem serventia, vira papel comum, coisa inócua, tempo perdido.
Bom, os bispos atualmente são nomeados conforme a linha do Vaticano que prefere uma Igreja fechada em si mesma e com pouca presença na sociedade. Por isso são escolhidos sacerdotes que não vão criar problema, a quem não cria problema, bem comportados, sem muita iniciativa, obedientes e decididos a manter o status quo, de seguir as linhas de uma igreja do passado, tradicionalista. Há alguns que escapam dessa forma, graças a Deus e então estes poucos conseguem promover trabalho de consciência religiosa, política, social e humana muito boa.Precisamos de bispos socialmente comprometidos.
O que acontece é que as classes dominantes, dominam mesmo e conseguem pressionar para que a Santa Sé nomeie bispos formatados como acima me referi e como isso controlam a política de quem está dirigindo a igreja. Os camponeses nunca escrevem para o Vaticano, não fazem pressão para pedir a nomeação de quem desejariam como bispos então, o Vaticano continua nomeando dentro da linha dos que dominam o mundo e nós sabemos como eles agem e como fazem essa dominação e as coisas, não mudam em benefício do povo, dos pobres e dos oprimidos, dos que precisam mais.
SL:Como são formados os padres, presentemente?
R: Formados para administrar a paróquia, celebrar missa.É uma formação instrução para agir dentro do recinto paroquial, não para meter-se nos problemas dos homens e das mulheres reais. Nem sabem o que são movimentos sociais, populares, por exemplo o que é o MST, o que é ir às fábricas, estar e agir no meio do povo.
A formação dos seminaristas é protegida para não se envolver com o social e isso mantém os seminaristas isolados e indiferentes ao que acontece local, regional, nacionalmente e no mundo globalizado. São formados para manter o tradicional.
SL: Como deve ser a Igreja Católica para este novo milênio? O que deve mudar para que subsista? Subsistirá com esse atual modelo das palmas e acenos, barulhos e mesuras em sua liturgia ? Com esse modelo consegue atrair o povo, o pobre, o jovem, gente das fábricas, do comércio? A Igreja vem perdendo adeptos? Por que?
R: A razão é que o clero vive fora do mundo atual numa sub-cultura alheia à sociedade atual. Procura manter as estruturas tradicionais, o status quo.Mas o status quo não convence mais ninguém e faz o fiel debandar ou ficar à mercê de outras religiões. O clero fica com essa minoria de velhos que ficam apegados ao passado. Esse povo de um modo geral não sabe o que está acontecendo porque ninguém diz nada e não ensina nada e nem informa nada, vai seguindo o que lhe repassam.
Esse povo faz o que a tradição ensina, o que o padre lembra. Vamos fazer uma procissão em honra de santo tal, o povo obedece porque foi sempre tratado e ensinado a obedecer, não a questionar. Esse povo é submisso. Mas é cada vez mais minoritário e afastado da sociedade.

IGREJA DE BELÉM LONGE DO FORUM SOCIAL MUNDIAL

Essa é a situação, agravada pelo tipo de educação que temos no Brasil. As classes dirigentes querem um sistema de educação que mantenha o povo na ignorância e na passividade. Não desperta a inteligência crítica, não desenvolve as capacidades de expressão. É feita para que o povo fique inerte diante da opressão.
SL: E a Teologia da Libertação?
R: A Teologia da Libertação surgiu para desenvolver o leigo, mas era tido como comunista. A repressão foi muito forte, pois representava um fantasma, um perigo para a hierarquia. E sobretudo para as classes dominantes
SL: E hoje, como está a situação?
R: Hoje o episcopado é outro, é do jeito que já lhe expliquei anteriormente , há uma voz aqui ou ali...
SL: Qual a função do papa?
R: Na sua encíclica Ut unum sint de 1995 no número 95 o Papa João Paulo II escrevia que era necessário encontrar uma forma diferente de exercer a função de Papa. A função de Papa consiste em manter a unidade entre todas as Igrejas. Não consiste em impor a uniformidade, mas em alimentar uma corrente de amor entre todas as Igrejas. O Papa não precisa intervir na vida interna de todas as Igrejas locais como faz atualmente
A função atual do papa é o maior obstáculo para as mudanças necessárias na igreja, porque o essencial da missão do papa é não ser assim como um grande chefe, grande príncipe... Esse modelo o papa João Paulo II reconheceu no final de sua missão, não ser o melhor e sim estar no meio do povo como irmão, amigo, um orientador espiritual magnânimo, afetuoso, sobretudo humano...
SL: E o Fórum Mundial de Teologia e Libertação e o Social Mundial?
R: Muito positivo. Ambos, aliás, todos que aconteceram, foram múltiplos e todo aquela gente participante, aquele povo presente quer alguma coisa, isso é um bom sinal, porque outro mundo é possível, outra organização mundial, outro modelo de civilização.Mas, onde estava a igreja da Amazônia neste fórum? A arquidiocese de Belém não participou e nem se manifestou; das demais dioceses parece que havia uns quatro a cinco bispos presentes, como dom Erwin, dom Azcona, dom Jesus,dom Pedro, alguns padres, religiosas. O resto não estava participando através de seus bispos, padres, irmãs, seminaristas, agentes de pastoral, como uma voz importante,colaboradora, com propostas , alternativas e no meio dos participantes. Podia estar ligada, atenta, ouvindo, observando, agindo; é preciso mesmo ser fermento na massa, e desperdiçar uma chance dessas é lamentável e é preciso estar muita atenta pois a Amazônia ainda é a maior parte do Brasil e a Igreja também é responsável pelo futuro da Amazônia.

Um comentário:

alexandre e alana disse...

fantástica entrevista! `parabens!!