sexta-feira, 10 de agosto de 2012

ALBERTO NUNES COUTINHO: ZELADOR DO CEMITÉRIO DE BAIÃO

SOU ZELADOR DO CEMITÉRIO DE BAIÃO E NÂO TENHO MEDO DE NADA NUNCA VI VISAGEM. O ÍNDICE DE MORTALIDADE É BAIXO EM BAIÃO OS JUDEUS ERAM ENTERRADOS NO CEMITÉRIO DE CAMETÁ

O cemitério da cidade de Baião se chama “São José”. Existe há muitos anos. Na frente, fica uma pracinha onde marreteiros, nos finais de semana, vendem redes de dormir. Em frente, antes do porto, no rio Tocantins, fica a biblioteca pública, em outra praça e havia ainda o campo de futebol perto da cadeia. A cadeia pública, foi incendiada há tempos e o campo, virou área residencial e de torres receptoras telefônicas.
Morre pouca gente em Baião, conforme os cálculos do zelador, que, de cabeça diz que há uma média de 2 enterros por mês e 50 sepultamentos por ano com exceções. Há pouco tempo adotou-se livro de registro de sepultamentos.
No cemitério há a lápide da sepultura do fundador de Baião, o português Antonio Baião[1]. Há sepulturas do intendente Levindo Rocha e de seus familiares. Há registros de sepulturas antigas, com inscrições feitas em mármore, na parte da frente do cemitério hoje murado e com algum espaço livro para enterros.
As sepulturas são feitas ao modo simples, do interior, caixilho em madeira, cruz com inscrição do nome, data de nascimento e morte e girândolas de flores feitas artesanalmente, antes de papel crepom, que logo se acabava e hoje, de plásticos, com maior durabilidade, penduradas sob o lenho.
Para saber mais sobre este campo santo, remeti por e-mail, algumas perguntas e solicitei ao prof. Nemias Rodrigues que fizesse a entrevista com o zelador do único cemitério na cidade de Baião. O resultado é o seguinte:
Meu nome é Alberto Nunes Coutinho. Nasci em Tucuruí, mas na certidão de casamento consta Baião[2], pois vim com dois meses de nascido pra Baião. Não possuo certidão de nascimento. Sei que nasci no dia 6 de agosto de 1936. Meu pai chamava-se Verediano Macieira Coutinho e minha mãe, Maria Rosalina Nunes Coutinho. Sou casado e o nome da minha mulher é Laurice de Medeiros Coutinho, temos 8 filhos, 5 homens e 3 mulheres. Só tenho o 5º ano primário, porque naquela época esse é o máximo de estudos que uma pessoa podia fazer aqui em Baião.

Sou o zelador do cemitério há 35 anos.  Profissão antiga: funileiro/operador. Atual: zelador do cemitério.
Comecei a trabalhar dia 3 de fevereiro de 1977 e nesse dia observei que havia uma placa na capela com a data de 1878, porém essa data é da construção da capela. O cemitério já existe há muito tempo antes e é o único da cidade.
- Há cemitério dos judeus? Onde, quantas sepulturas?
Não há cemitério israelita aqui em Baião. Havia uma sepultura da família Benchimol, [3]mas não existe mais nenhum registro.
- É verdade que existia uma parte neste cemitério onde eram enterrados os judeus?  E o que aconteceu para não haver mais sepulturas de judeus? Caso tenham sido destruídas, ficou algum registro, pedra, nome, etc?
Alberto responde:
-Nunca houve nenhuma parte destinada aos judeus. Só foi enterrado um judeu no cemitério, era gente da família Benchimol. Os judeus que morriam em Baião eram enterrados no cemitério de Cametá[4], naquela cidade, visto que lá existe cemitério de judeus.
Aqui em Baião, neste cemitério onde sou zelador, a área do cemitério na qual havia a sepultura desse judeu da família Benchimol, foi destruída quando foi procedida uma reforma e foi feita uma grande limpeza com pá mecânica no cemitério. Hoje não há nenhum registro.
 - Existe um livro de registro de sepultamento? Quais judeus foram sepultados aí?
Alberto responde:
 - Existe um criado no ano de 2000 pra cá. Antes dessa data, não há nenhum registro de sepultamento.
- O senhor tem medo de trabalhar aqui neste cemitério?

Alberto responde:

- Não. Inclusive vou ao cemitério a qualquer hora da noite, caso seja necessário, até sepultamento já fiz, à noite, vários, pois é permitido fazer enterro a qualquer hora na noite, em caso de emergência, quando fica impossível segurar mais o corpo insepulto.
Alberto conta que existe uma pessoa em Baião, que , quando está porre, dorme dentro do cemitério e isto é uma ocorrência costumeira.
- Existe casos de visagens? Quais?
- Não conheço, não sei falar, nunca vi uma visagem. O que eu sei dizer é que o que faz a pessoa ver visagem, é o medo, e isso, eu não tenho.

CURIOSIDADES
A - Contam, em Baião que, nos tempos passados, pai de prole numerosa e muito rígido na educação dos filhos, quando pequenos, tirava o medo, mandando-os à meia-noite deixar uma encomenda para ser colocada no meio do altar da capela, sob os protestos da mãe, que nada podia fazer.
B – Consta que, existe no cemitério de Baião sepultura de uma pessoa - Pedro Caldas - que era peoara em contar piadas na cidade e que na lápide da sepultura, há esse detalhe que chama a atenção por ser uma inscrição diferente das costumeiras.
 


[1] Manoel Carlos da Silva, diretor de índios, teve permissão do governador para fundar e fundou, a 30 de outubro de 1769, sob o título de Lugar do Baião (Originalmente, em 1694, concedeu-se ao português Antonio Baião, uma sesmaria que abrangia essa área, cf Ignácio Baptista Moura in “De Belém a S. João do Araguaia”, p. 126/129) uma povoação, com 30 índios.
[2] Tucuruí fazia parte do município de Baião e só se tornou autônomo, em 1945.
[3] Hoje, em Baião, há registro apenas de alguns membros da família Nahmias. Antes, além da Benchimol, havia os Azancot.
[4] Cametá mantém cemitério israelita. Em décadas passadas, havia em Cametá, uma sinagoga, era a única, fora de Belém, para onde convergiam os judeus que moravam no Baixo-Tocantins. O rio Tocanrtins tragou a sinagoga que fica na primeira rua da cidade que desapareceu nas águas. E no cemitério de Cametá, os judeus enterravam seus mortos. Por isso, quem morria em Baião, era enterrado em Cametá.

3 comentários:

Antonio Felix disse...

No item [3] foi mencionado o nome da Familia Azancot. Existe algum post neste blog falando mais a respeito da origem dessa família? Obrigado.

Salomão Larêdo disse...

Antônio, infelizmente só há esta citação sobre a família Azancot

Salomão Larêdo disse...

Antônio, infelizmente só há esta citação sobre a família Azancot